05/04/2008

Crónica de Ricardo Araújo Pereira

Muitos de Voces eventualmente já terão lido esta crónica, mas para quem não leu aqui vai...está muito fixe!! Hehehe

Opinião, por Ricardo Araújo Pereira. (Crónica da Visão)

IKEA: enlouqueça você mesmo Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros. Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja. Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»? São ambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia».

As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos. Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias.
É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.
Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente pagou dois transportes e duas montagens e ficou com um móvel incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas como sou eu, aborrece--me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.

Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti num dia e a outra metade no outro. E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.

2 comentários:

Ricardo disse...

fica a sugestão, de alguém não interessado no assunto: experimentem ir á Moviflor comprar uma mesinha com meia dúzia de tábuas, pagarem metade, e terem de a ir buscar uma semana depois, ao armazém da Moviflor que fica a uns 5 kilómetros de distância da loja, e para lá chegarem, espero que percebam de mapas.
O IKEA realmente é um conceito diferente do que estava habituado, mas se está DIARIAMENTE sobrelotado, por alguma coisa é... ou não?
Realmente, quem não quer fazer figura de "bésta", não vai ao IKEA, e a concorrência nem é assim tão longe.
Beijinhos para vocês meninas.

Álvaro disse...

Tanto exagero RAP! Mas compreendo tanta revolta incontida, assim que associei este, ao seu comentário sobre o campeonato da 1.º Liga. Como benfiquista asumido que é, entende-se que tenha já três hérnias (ainda há dias somou outras tantas) e o (seu) mundo lhe pareça cada vez mais estranho. De um humor cáustico quanto ao futebol, diria mesmo que negro, sem que com querer voltar à razão das hérnias mais recentes, tudo serve para descarregar tanta incompreensão. E você, já se vê, tem dificuldades em carregar tanta revolta. Daí que, mete-se com a valentia dos outros... Ainda para mais que a Suécia tem azul na sua bandeira. Raio de coisa! Fosse o IKEA rebaptizado de SLB e já nem na pronúncia da sigla haveria problema, pois não? Nem tão-pouco em levar a equipa toda ao colo sempre que esta ganhasse campeonatos e a fosse vitoriar no...SLB, então "um modelo de sucesso, onde apenas com uma mão montamos uma doze estantes!".
Desejo-lhe, sinceramente, rápidas melhoras. E um abraço, extensivo aos outros companheiros "fedorentos". E deixe lá a revolta. O Benfica ainda
há-de voltar a ganhar campeonatos...